quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sapo quente















Talvez seja preciso morrerem mais crianças ciganas para nos questionarmos. O caso de Avis é tão só um exemplo do que é uma prática comum pelo país fora. Autarcas, autoridades policiais, governadores civis, políticos da administração central, todos têm conhecimento dos casos. Aliás todos temos conhecimento destes casos, os cientistas sociais não escapam. Basta ler blogues, jornais, telejornais, ir ao sítio da Segurança Social e ler os diagnósticos sociais e os consequentes planos de desenvolvimento social e planos de acção sucessivas vezes adiados.
Não deixa de ser chocante que a única ferramenta que emerge no horizonte de algumas assistentes sociais - mas atenção que todos os decisores acima destas assiststentes sociais devem ser responsabilizados por casos como o de Avis - seja retirar os filhos aos pais. Já a Dona Maria Teresa tinha sugerido e posto em prática esta medida, tal como aconteceu também na Hungria e outros países europeus há vários séculos atrás.
Em milhares de cafés espalhados pelo nosso país, como o "Meia Laranja" de Castro Verde na foto, entretemos-nos a pousar estrategicamente sapos verdes para, virando costas, fechar mais portas na cara dos ciganos para lhes dizermos, só aos ciganos, que não são bem-vindos aos lugares comuns.
Por vezes sapos como este podem matar.
E ninguém tem vergonha na cara.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Conference on Roma access to political participation - European Parliament - Brussels, 16 April 2009

This morning a conference on Roma access to political participation was held at the EP. Organised by the European Roma Information Office (ERIO) and hosted by MEP Jan Marinus Wiersma, this conference will seek to overcome the barriers that prevent Roma from from acess the decision-making process and to encourage European leaders to promote Roma political participation at European and national levels.

FOR THE FIRST TIME ROMANES WILL BE THE WORKING LANGUAGE IN A CONFERENCE AT THE EP

"In an ideal world, 24 of the 785 members of the European Parliament should come from the Roma community. However, this is very far from reality."

Check: http://erionet.org/site/basic100141.html

Conclusions soon...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Valerá uma imagem por mil palavras?

No sítio da Euronews vêem-se - em http://pt.euronews.net/2009/04/08/video-mostra-maus-tratos-da-policia-a-jovens-ciganos-eslovacos/ - agressões a crianças ciganas eslovacas, numa esquadra, por polícias, vários, 9. Será que o detalhe importa? E se fosse um? Um cigano e um polícia?
As imagens contam quando contam.
Por exemplo, quantos concelhos em Portugal têm ainda apenas ciganos a viver em barracas ou, mais grave, debaixo de tendas, oleados? Será que se vê? Vê. Há relatórios? Há. Até a administração central, Parlamento, os tem. As autarquias portuguesas também têm relatórios, diagnósticos levantados.
Enquanto antropólogo, desde 2006, acompanhei algumas famílias de portugueses ciganos, obrigadas a permanecerem nómadas. Através desse contacto, dei os casos a conhecer a autarquias, a assistentes sociais, nas audições da AR. Assim com indiquei casos nos quais vivem em barracas, há várias gerações, ilustrados com fotografias que eu próprio captei.
Essas famílias, essas pessoas continuam a viver exactamente nas mesmas situações: uns "nómadas à força", outras nas mesmas barracas.
No fim da notícia da Euronews aparece o seguinte:
«Segundo a Amnistia Internacional, na Eslováquia, os ciganos continuam a ser discriminados no acesso à educação, à habitação, à saúde e a vários outros serviços.»
E em Portugal, como será? Esta violência não existe - ou então não se vê? Uma rapariga cigana que conheci, dita"nómada", menor de idade, disse-me ter tido uma arma apontada à cara por um agente da autoridade policial - mas a discriminação, no acesso à habitação, educação, e aos serviços mais básicos que se possam imaginar, como num café ou mercado, é actual. 
Quando será verdade que uma imagem vale por mil palavras?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Sobre o relatório das audições sobre portugueses ciganos

Hoje, dia 8 de Abril de 2009, é comemorado mais uma vez o dia internacional do cigano. Começou na cidade de Londres, em 1971. Decisão política.

No passado dia 17 de Março, foi apresentado, na Assembleia da República, o relatório das audições sobre portugueses ciganos, ouvidos pela primeira vez no parlamento português. Enquanto cientista social eu fui ouvido nessas audições, mas não revejo nem o que disse nem muito do que ouvi dizer ao longo das várias sessões neste relatório. É certo que é um ponto de partida, como diria a minha cúmplice de blogue, e pode ser bem aproveitado, mas fica aquém do que imaginei inicialmente e quando fui ouvido.

Poderá este relatório vir a ser o ponto de viragem para inverter o sentido da atenção política que (não) lhes tem vindo a ser dedicada?

Entende-se, no relatório, que a deputada que dirigiu as audições, queira fazer tabula rasa dos estudos e de toda a informação que já existe (e existe!) para “apenas” ouvir o que as 60 pessoas auscultadas tiveram a dizer. Qual foi então o ponto, ou pontos, de partida? O zero, como se nada se soubesse até aqui.

De que forma se sentirão os investigadores sociais, os que foram e os que não foram convidados a serem ouvidos, ex-mediadores e outros ciganos que dão os seus contributos há mais de 10 anos para que haja maior aproximação e compreensão das relações entre um e outro grupo étnico, quando no primeiro parágrafo do relatório se afirma que “verificamos hoje que sabemos pouco sobre esta comunidade de cidadãos, entretanto, portugueses.”? Será que não se fez nada que possa contribuir para que este desconhecimento não seja o que se diz que é neste relatório?

Já agora, porque se introduzirá aqui o "entretanto"? Referir-se-á aos últimos 500 anos? E no meu caso, quais serão as minhas origens? Será que agora já sou português? Fará esta localização temporal algum sentido?

A deputada Maria da Rosário Carneiro espera com este relatório sobre os Ciganos apenas “reunir informação que permita um conhecimento mais aprofundado acerca da sua identidade, da sua diversidade, das suas condições de vida”. Não estará já esta luta noutro patamar?

Espera a deputada, ainda, que este relatório “habilite os decisores políticos com os elementos necessários à formulação de eventuais iniciativas legislativas e políticas promotoras da mais plena integração desta comunidade”. O que é um decisor político? Não serão um deputado ou uma deputada, decisores políticos ou, pelo menos, motores da decisão política? O que esperam?

Acredito na iniciativa, mas os resultados são escassos, na altura em mais era preciso uma estratégia vinda de cima....